Uma Praga calorosa
Foi no dia 2 de julho que chegámos ao aeroporto Ruzyane. Dada a prévia pesquisa sobre os transportes que nos levariam ao nosso apartamento em Dlouhá třída, “Salvatore Apartments”, lá fomos de autocarro e depois de metro até à estação Náměstí Republiky. Depois de desfeitas as malas, tratámos de procurar um sítio para fazer um jantar frugal, já que queríamos descansar para estar em forma no dia seguinte. O bairro de Nové Město (Cidade Nova) afigurou-se-nos tranquilo e simpático, com todos os serviços à mão de semear.
O formador, Lukasz Kosowski, combinou o 1º encontro com o grupo num dos parques da cidade, o Letná. Foi um excelente início, já que pudemos desfrutar de um local calmo e com vistas encantadoras sobre a cidade e o rio Moldava. Acabámos por almoçar aí, num restaurante ao ar livre, onde provámos um prato típico da gastronomia checa, o Svicková na Smetane, que consiste em carne com molho à base de Smetana (as pessoas muitas vezes traduzem como creme de leite, mas é algo bem diferente, típico em muitos países eslavos), geralmente servido com geleia de arandos, chantilly e dumplings de pão (Knedlínky). Ficou aprovado! Por sugestão do Lukasz, bebeu-se cerveja checa de grande qualidade.
O dia seguinte foi para visitar o centro da cidade velha, com a sua famosa Praça cujo edifício da Câmara é um dos que mais olhares atrai, por nele estar instalado o famoso e impressionante Relógio Astronómico de Praga que vale, efetivamente, a visita e a fotografia.
Foi a vez de caminharmos pela Ponte Carlos (Karluv Most), o monumento mais famoso de Praga que liga a Cidade Velha (Staré Město) à Cidade Pequena (Malá Strana). Com as suas 30 estátuas, demorou algum tempo a percorrer, também pelo aglomerado de turistas que atrai. Observámos, encantadas, a arquitetura dos edifícios que se afigurou variada e bela, com as suas pinturas de estilo arte nova nas fachadas, fazendo lembrar frescos de igrejas da Renascença.
A visita ao bairro judeu, bem como ao cemitério, impressionou pelo número e forma das lápides aí presentes. A sinagoga Pinkas, fundada em 1479 e localizada na entrada do cemitério, é uma das mais famosas de Praga. Nas suas paredes estão escritos os nomes dos 77.297 judeus checoslovacos assassinados pelos nazis.
Após esta visita impressionante e comovente, a tarde teria de acabar num local aprazível, num dos cafés Art Nouveau da capital checa, o Café Imperial. E, de facto, não desiludiu, com os seus maravilhosos candelabros, bem como com os azulejos originais Art Nouveau nas paredes e o teto em mosaico de 1914 que são de tirar o fôlego, coroados por grandes janelas para a rua.
Os passeios de rua sobrepuseram-se às visitas no interior de museus ou igrejas, mas houve tempo para visitar a Central Gallery, com exposições de Andy Warhol, Salvador Dali e Alphonse Mucha. Não demos o tempo por perdido já que descobrimos segredos da vida familiar de Warhol e pudemos apreciar as obras maravilhosas destes três famosos artistas. Uma vez na rua, o cheiro intenso de um doce muito comum em Praga, o trdelnik, um tipo de biscoito assado, coberto de açúcar e canela, invadiu as nossas narinas. Observámos que muitos turistas o degustavam com gelado no seu interior e quisemos prová-lo. Não conseguimos acabar, dado o seu tamanho e intensa doçura!
No dia seguinte, foi a vez de visitarmos o exterior do Castelo de Praga, um dos maiores do mundo. Os seus jardins e miradouros sobre a cidade encantaram-nos e serviram para relaxar após uma longa subida. Descemos então para conhecer um dos monumentos emblemáticos da cidade conhecido como Casa Dançante, pelas suas formas peculiares, lembrando um par de dançarinos. Este edifício representa a moderna arquitetura checa e, na altura em que foi construído, foi alvo de críticas pelo seu estilo arrojado e peculiar. De regresso a casa, fomos surpreendidas por uma belíssima catedral ortodoxa, Igreja Catedral Ortodoxa de São Cirilo e São Metódio e entrámos para observar o seu interior barroco de bela talha dourada.
Entretanto, e dada a peculiaridade do nosso formador Lukasz, foi-nos atribuída uma tarefa que consistia na descoberta de seis lugares/monumentos da cidade, os quais não só deveriam ser fotografados, mas também comentados num texto onde os interpretássemos, relacionando-os com a cultura checa e a sua mensagem no presente e para o futuro.
Começámos por descobrir, no interior de uma antiga galeria comercial, a estátua suspensa do teto do Rei Wenceslas, montado num cavalo de cabeça para baixo, obra algo surpreendente e impressionante pelas suas dimensões. Mas o tempo levou-nos a procurar pelo segundo local a visitar, o Memorial às Vítimas do Comunismo, uma série admirável de esculturas em bronze, representando as mulheres e homens que foram perseguidos, encarcerados, torturados e mortos pelo regime soviético entre 1948 e 1989.
Após este monumento, esperava-nos a escultura designada por “Crawling Babies”, uma série de bebés gigantes em bronze a gatinhar, os quais, na cara, apenas tinham uma entrada USB ou um código de barras, o que tornou muito interessante a interpretação destas figuras. Próxima paragem: Muro de Lennon. Trata-se de uma enorme parede grafitada e colorida, símbolo da paz e da liberdade de expressão. O que a torna tão original é a constante mutação, já que novas pinturas e inscrições se sobrepõem às antigas. E, toca a andar! Vamos em busca das “Urinating Sculptures”, dois homens frente a frente que seguram nos seus pénis e urinam para cima de um mapa da atual Chéquia. Mais uma obra controversa do escultor David Černý, o mesmo das esculturas dos bebés rastejantes e do Rei Wenceslas. Está na hora de partirmos para descobrir a Escultura do Metrónomo de Praga. Uma vez chegadas ao local, deparámo-nos com uma escadaria íngreme e sem fim à vista! Dado o adiantado da hora (o nosso formador esperava-nos para a sessão desse dia) e o calor que se fazia sentir - já para não falarmos do cansaço - sentámo- nos no muro que ladeava a escada, à sombra de uma bela árvore, recuperando forças para chegar ao local da formação. Assim, tivemos de ver online o dito metrónomo e pesquisar informação sobre ele.
Realizámos ainda uma visita proposta pelo nosso formador ao castelo de Vyšehrad, um forte histórico a pouco mais de 3 km a sudeste do Castelo de Praga, na margem leste do rio Moldava, com excelentes jardins e magníficas vistas sobre a cidade. Aí fomos surpreendidas pela Igreja de
S. Pedro e S. Paulo que, após um incêndio, foi reconstruída em finais do século XIX em estilo neogótico. As pinturas do seu interior são fascinantes, fazendo lembrar as pinturas do artista Mucha de estilo Art Nouveau.
Para o último dia de formação, e mais uma vez sob a proposta do Lukasz, encontrámo-nos num barco-restaurante o “Lod’ Pivovar”. Foi aí que fizemos a avaliação do curso, bem como um esboço do trabalho final, bebendo limonada com framboesas, bem fresquinha, já que o calor apertava em Praga, 33ºC, seco e irrespirável! O almoço também aí teve lugar e foi-me servida a maior posta de bacalhau fresco alguma vez vista, ao pedir o famoso prato inglês Fish and chips.
Após a entrega dos diplomas e muitas fotografias do grupo, chegou o momento da difícil despedida. Sobrava-nos ainda o dia seguinte, o último para desfrutar dessa cidade inesperadamente quente. E, por esse mesmo motivo, o que fizemos foi uma viagem de barco pelo rio, desfrutando das vistas da sua monumentalidade gótica. Após o almoço, num dos poucos restaurantes da cidade com ar condicionado, sobrou ainda tempo para visitarmos o edifício da Casa Municipal, um dos mais destacados edifícios Art Nouveau de Praga, cuja cafetaria se nos afigurou belíssima. É também aqui que se encontra a principal sala de concertos de Praga.
E desta forma terminou a nossa estadia numa cidade calorosa, em todos os sentidos! Esperava- nos o avião que nos traria de regresso a casa.
Ana Paula Albino e Renata Müller