Da Vida para os Palcos
Da Vida para os Palcos: os Corações que Tremem do AbreMundos – apresentações na Mostra de Teatro da Amadora e no Auditório da escola
Foi a atriz Carla Chambel que, depois de assistir à criação do AbreMundos do ano anterior, nos lançou o desafio de mergulhar em Brecht. E nós aceitámo-lo com o coração nas mãos. Ao lermos O que diz sim. O que diz não., deixámo-nos impregnar pelas suas perguntas, inquietações e a forma como Brecht nos obriga a olhar para a condição humana sem conforto nem máscaras. Mas, pelo caminho, percebemos também que precisávamos de acrescentar as nossas próprias histórias, os nossos próprios episódios de medo e coragem, de queda e resistência. Foi assim que nasceram os Corações que Tremem.
Na XXVI Mostra de Teatro das Escolas da Amadora, o Grupo de Teatro AbreMundos levou à cena um espetáculo feito de partes de si. Levou as fragilidades, os silêncios, as inquietações e as perguntas de um grupo de jovens e adultos que encontrou no teatro um lugar raro de encontro consigo próprios e com os outros.
Estreia no Teatro Passagem de Nível, 5/5/2026
Como escreveu o professor Francisco Pessoa Júnior, da Escola Superior de Teatro e Cinema, depois de assistir à peça - numa carta tão amavelmente dirigida ao AbreMundos - havia em cena “humanidade e realidade manifestas”, uma “apropriação real e tangível das vivências dos próprios intérpretes”, permitindo ao espetador reconhecer “as suas próprias alturas e quedas, luzes e sombras”. Talvez tenha sido precisamente isso que tornou esta criação tão especial: a audácia de não representar apenas personagens, mas de se representarem também a si mesmos, nas suas dúvidas, medos e pequenas resistências diárias.
Dos longos ensaios, passando pela residência artística às apresentações nas salas de espetáculo da Amadora, este grupo percebeu que o teatro transcende a subida ao palco. Com o teatro aprende-se a ouvir, a olhar, a cair, a continuar. Constrói-se comunidade e, nas palavras dos jovens atores, uma espécie de família. Vimos isso nas suas mãos estendidas, nos silêncios respeitados, nos corações transportados para a cena como metáfora do que carregamos em nós e nem sempre conseguimos transmitir literalmente.
Segunda apresentação nos Recreios da Amadora, Mostra de Teatro Escolas, 13/5/2026
Na Gala final da Mostra, as palavras de agradecimento revelaram exatamente isso: que o teatro transforma profundamente quem o vive. E transforma porque obriga a uma exposição rara num mundo habituado a esconder fragilidades. Ali, naquele palco, houve espaço para tremer. E tremer tornou-se força.
Há grupos que permitem mesmo que o teatro os atravesse verdadeiramente. O AbreMundos pertence a esse lugar mais difícil e mais bonito. Um lugar onde cada aluno cresce enquanto ator, mas sobretudo enquanto pessoa. Onde se aprende que dizer “sim” e dizer “não” são escolhas humanas, éticas e íntimas, que nos acompanham para lá dos palcos.
Talvez por isso tenha sido tão emocionante ouvir, na carta do professor Francisco Pessoa Júnior, a ideia de que, qualquer que seja o futuro destes jovens - médicos, professores, artistas ou qualquer outra profissão -, o teatro permanecerá neles. Na forma como escutam os outros, como comunicam, como olham o mundo com mais empatia, sensibilidade e coragem.
E talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer ao teatro escolar: quando deixa de ser apenas “escolar” para se tornar profundamente humano.
Na XXVI Mostra de Teatro das Escolas da Amadora, os Corações que Tremem lembraram-nos exatamente disso: que há uma beleza imensa em continuar, mesmo quando o coração treme.
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Gala da XXVI Mostra de Teatro de Escolas, Amadora
Mas esta viagem não terminou com a Mostra.
Este ano, até captámos a atenção de um jornal digital local, que nos dedicou um artigo, para nossa surpresa: https://newinamadora.nit.pt/cultura/nova-peca-de-teatro-na-amadora-desafia-o-publico-a-dizer-sim-ou-nao
Tal como aí anunciado, no dia 29 de maio, o Auditório da Escola Secundária Seomara da Costa Primo voltou a encher-se para três apresentações muito especiais. Duas delas decorreram durante a manhã, para a comunidade escolar, particularmente para as turmas a que pertencem os atores e atrizes do AbreMundos. Foi um momento de partilha entre colegas, professores e amigos que puderam finalmente compreender porque é que aqueles jovens ali no palco andavam, nos intervalos (esperamos nós que nos intervalos e não nas aulas!), com a cara enfiada numa certa capa azul, a murmurar texto e a fazer gestos expansivos ou mais contidos, por que passavam tardes inteiras em ensaios, por que insistem em estar e regressar, ensaio após ensaios, ano após ano.
A terceira apresentação teve um significado ainda mais especial. Integrada no compromisso do Agrupamento com a Comissão Social de Freguesia da Venteira, surgiu da proposta e mediação da assistente social Vanessa Rodrigues, permitindo oferecer uma sessão exclusivamente dedicada à população sénior da freguesia. Num território marcado pelo envelhecimento demográfico e por dificuldades económicas que tantas vezes limitam o acesso à cultura, o AbreMundos procurou retribuir à comunidade através daquilo que melhor sabe fazer: criar encontros humanos através da arte.
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Auditório da Escola
E foi impossível não nos emocionarmos quando, no final do espetáculo, uma das utentes presentes se levantou para dizer: «Deveríamos ouvir estas palavras todos os dias... obrigada, AbreMundos!». Talvez nessa frase simples estivesse contido o sentido mais profundo de tudo aquilo que procuramos fazer. Porque o teatro só encontra a sua verdadeira razão de existir quando toca alguém, cria reflexão, ou gera diálogo, e quando até nos ajuda a sentir menos sozinhos.
No final desta temporada, o professor Vítor Cardia, membro do staff e assistente de cena, escreveu que o AbreMundos tem sido "um farol" dentro da escola, pela voz autêntica que procura lançar ao mundo e pelos valores que transporta. E talvez essa seja uma das imagens mais felizes para definir este grupo. Um farol não existe para si próprio, mas para iluminar os caminhos, às vezes de quem corre o risco de se perder.
O Vítor diz e nós concordamos, que Corações que Tremem foi um verdadeiro hino à coragem de ser quem se é; uma reflexão sobre os medos, as expetativas e as circunstâncias que tantas vezes nos afastam de nós mesmos. Porque há momentos em que é preciso dizer não, há costumes que precisam de ser abandonados. Porque há ideias gastas que deixaram de servir. E viver implica escolher, mesmo quando sabemos pouco, mesmo quando o coração treme.
As peças do AbreMundos são, acima de tudo, celebrações da vida. Talvez por isso consigam tocar públicos tão diferentes: colegas de escola, professores, famílias, amigos, profissionais das artes ou utentes séniores da comunidade local. Em todas elas existe uma mesma vontade de pensar um mundo mais livre, mais justo e mais humano.
O Grupo de Teatro AbreMundos agradece profundamente ao Município da Amadora e à organização da Mostra de Teatro das Escolas da Amadora por continuarem a acreditar no teatro enquanto espaço de crescimento humano, artístico e comunitário. Um agradecimento igualmente sentido à Direção do Agrupamento de Escolas Amadora Oeste pelo apoio constante aos projetos artísticos e à criação e por continuar a criar condições que estes jovens encontrem no teatro um lugar de pertença, liberdade e expressão.
Agradecemos ainda à Comissão Social de Freguesia da Venteira e aos seus parceiros pelo reconhecimento do valor transformador da cultura enquanto instrumento de inclusão, participação e bem-estar social, bem como à assistente social Vanessa Rodrigues pela confiança depositada neste grupo e pela oportunidade de aproximar a comunidade local da arte criada pelos nossos jovens.
Uma palavra de enorme gratidão também a todos os professores, famílias, técnicos, colaboradores e amigos que acompanharam este percurso, ajudando a tornar possível os ensaios, os cenários, os figurinos, as luzes, a captação de belíssimas fotografias que aqui partilhamos
E, sobretudo, aos alunos do AbreMundos: por terem a coragem de se exporem e acreditarem. Vejam só como são capazes de coisas tão belas!
Como perguntava o Vítor no final da sua mensagem: «Já imaginaram se o AbreMundos fosse mesmo ouvido?». Depois desta temporada, das salas cheias, das reflexões partilhadas, das lágrimas discretas (ou por demais evidentes!) e dos aplausos repetidos, acreditamos que foi. E que continuará a ser. Porque, quando o teatro encontra a verdade, a sua voz permanece muito para além do último aplauso.
Até para o ano, AbreMundos!
Vítor, Anita, Daniela, Diana, Rita: não há longe nem distância para quem passa pelo AbreMundos. Gratidão pelo que foram e deram: estamos certos que permaneceremos em vós também.
Fotos dos espetáculos captadas por Luís Alexandre, amigo do AbreMundos
Marcações: AbreMundos, 2025-2026


























































































































































































































































